“Uma leitura realista do setor: é disso que precisamos”
Caras e Caros Associados,
No início do ano, partilhei convosco a visão da APHORT para 2026, referindo que este seria um ano exigente. Passados poucos meses, essa leitura confirma-se.
O contexto económico e social continua a exercer uma forte pressão sobre as empresas do nosso setor. Os custos com matérias-primas, energia, rendas e mão de obra permanecem elevados, num cenário em que também os consumidores sentem, no seu dia a dia, o impacto do aumento generalizado dos preços e da perda de poder de compra. Como consequência, assistimos a mudanças nos hábitos de consumo e a um cliente cada vez mais atento ao preço, mais seletivo e menos previsível.
Nas últimas semanas, muito se tem dito sobre uma eventual crise na restauração. A posição da APHORT sobre esta matéria é clara. Seria simplista negar as dificuldades que muitas empresas enfrentam. Mas seria igualmente redutor acreditar que elas se resolvem com medidas pontuais ou com soluções apresentadas como milagrosas. Parece-nos evidente que insistir repetidamente nas mesmas reivindicações, por si só, não altera a realidade em que vivemos.
Há, sem dúvida, empresas a atravessar situações particularmente delicadas. Mas há também uma realidade mais profunda que não pode ser ignorada: o modelo de negócio mudou. O mercado é hoje mais competitivo, os custos aumentaram, os consumidores alteraram comportamentos e as expectativas de rentabilidade têm de ser realistas e ajustadas a um contexto diferente daquele que existia há alguns anos. Isto exige aos empresários uma maior profissionalização, rigor na gestão, capacidade de adaptação e decisões tomadas com os pés bem assentes na terra.
Não alinhamos em discursos alarmistas, nem em narrativas excessivamente otimistas que ignoram as desigualdades existentes no setor. Sabemos que muitas das pressões enfrentadas pelas empresas são pouco visíveis para a opinião pública, e, como tal, nem sempre são devidamente compreendidas. Por isso, mais do que repetir exigências vazias para gerar espaço na imprensa, o nosso compromisso é continuar a explicar, com seriedade e rigor, aquilo que está efetivamente em causa e a defender soluções que façam sentido para as empresas e para o país.
Isto não significa passividade. Continuamos atentos às posições do Governo e a acompanhar com especial atenção as medidas que possam ter impacto na atividade das nossas empresas. Mas mantemos a convicção de que a competitividade do setor depende de fatores mais estruturais como a estabilidade, a previsibilidade, a redução da carga burocrática, uma maior eficiência administrativa e um enquadramento económico que permita às empresas planear com confiança. Por outro lado, reafirmamos que os empresários não podem fazer depender o futuro dos seus negócios de decisões externas. Cada empresa tem de conhecer a sua realidade, ajustar o seu modelo de negócio e tomar decisões sustentadas.
No plano laboral, continuamos à mesa de negociações com os sindicatos representativos do setor.
Este ano, o nosso objetivo é ir além da simples atualização salarial, abordando um conjunto mais alargado de matérias relevantes para as empresas e para os trabalhadores. Contudo, à semelhança do que o país assistiu no debate em torno da revisão da legislação laboral, também este processo negocial tem conhecido momentos de bloqueio e de maior dificuldade. São vários os pontos ainda em aberto, mas mantemos uma postura responsável na expectativa de alcançar soluções equilibradas que valorizem os trabalhadores sem comprometer a sustentabilidade das empresas.
Na mais recente Assembleia Geral da HOTREC, em Cork, onde estivemos presentes, ficou claro que os desafios que enfrentamos em Portugal são partilhados por toda a Europa. Escassez de mão de obra, aumento dos custos operacionais, pressão regulatória e incerteza económica são preocupações comuns a empresas de todo o continente.
Ao mesmo tempo, num contexto internacional de enorme instabilidade, é notório que Portugal continua a reunir atributos muito valorizados pelos mercados: segurança, hospitalidade, qualidade da oferta e localização estratégica. É fundamental preservar e reforçar essa posição. Temos condições para continuar a afirmar o nosso país como um destino turístico de eleição, mas isso requer empresas sólidas, competitivas e capazes de investir com confiança.
Em tempos exigentes como os que vivemos, há uma certeza que se mantém. Os próximos meses continuarão a pedir prudência, adaptação e decisões bem fundamentadas. Estaremos ao lado dos nossos Associados, com a mesma postura de sempre, alicerçada na proximidade, na frontalidade e sentido de responsabilidade. Mais do que promessas fáceis, aquilo que os empresários precisam é de estabilidade, previsibilidade e confiança. É com esse compromisso que continuaremos a trabalhar.
Em nome de toda a equipa da APHORT, agradeço a confiança que depositam nesta vossa Associação e desejo a todos um período de trabalho produtivo e bem-sucedido.
Com os meus melhores cumprimentos,
Rodrigo Pinto Barros
Presidente

